Dia de Darney


Foto tirada por Estela Rosa (Buenos Aires, 2007)

 

Hoje eu saí de casa vestida de Barney. Barney aquele dinossauro roxo e verde da televisão.

A Wikipedia diz que Barney voltou 200 milhões anos a vida graças à imaginação das crianças e ele tem uma atitude bem positiva e bem otimista, e é adorado por todos. Mas acho que seria mais adequado eu dizer que saí vestida de Darney, a versão inversa de Barney, onde, além de não existir, tem o traseiro volumoso, pernas e braços largos e curtos, os pés são pequenos e no rosto uma imagem patética. Ok, até aí continua sendo que nem o Barney, mas o que difere é que Darney é bem negativo e bem pessimista, e é rejeitado por todos.

Então posso recomeçar dizendo que hoje eu saí de casa vestida de Darney.

Engraçado é que não foi de imediato que percebi que estava vestida assim. A princípio eu só achei estranho que tinha escolhido a minha melhor calça e uma blusa que julgo ficar ótima em mim estarem tão apertadas. Não tinha reparado que tinha colocado minhas roupas por cima do Darney. Mas continuei me arrumando, afinal escolhi roupas seguramente boas. Calcei meus tênis novos, que fiquei muito contente e satisfeita ao comprar anteontem, e me olhei no espelho. Achei que tinha algo errado. Parecia que minhas pernas estavam mais curtas e meus braços mais volumosos, mas prossegui com meu dia. Eu não podia me demorar. Percebi que estava difícil levantar do sofá ou sair de casa. Estava sentindo o peso por me vestir de Darney e achei que estava ficando mais resfriada.

Ao sair de casa notei que as pessoas olhavam pra mim e deixavam claro em suas expressões que eu estava ridícula. Segurei a alça da minha bolsa carteiro estampada com o Han Solo com força e andei mais rápido, porque eu não queria me atrasar. Entrei na petshop para comprar comida pros gatos e acho que a atendente não gosta muito de dinossauros, porque ela foi um pouco rude comigo. Ela já estava reclamando da merda de uma caixa que estava sempre atrapalhando a mexer nas tabelas de preço e como era incrível como sempre tinha alguém colocando de novo no lugar errado, mas eu ainda saí da petshop sentindo que ela não foi com a minha cara. Foi nesse momento que percebi que estava com uma cauda, porque eu fiquei esbarrando em tudo nas ruas e comecei a ter a sensação de que estava atrapalhando o trânsito das pessoas e até mesmo dos cachorros dos mendigos.

Precisava fazer uma hora para esperar meu namorado e irmos juntos para o trabalho, por isso entrei numa loja de roupas e onde eu me sentia mais confortável que esperar por ele na rua. Passando pelas araras vi muita coisa legal e decidi ver se um vestido ficaria bem em mim pendurando-o na minha frente enquanto me olhava no espelho.

E foi nesse momento que percebi que estava vestida de Darney. Nunca que aquele vestido iria ficar bem em mim. Como iria aquela cauda, aquela bunda e coxas ficar cobertas? E aqueles braços cheios de espuma não passariam nunca naquela manga. Olhei pro meu rosto e vi que os óculos estavam esquisitos, afinal a cabeça de Darney já estava um pouco surrada e estava um pouco torta. Mirei o cabelo na esperança de ainda ser o meu cabelo, mas lá estavam os cabelos sintéticos, como de uma Barbie que o irmão mais novo usou como pincel para lavar o box no banho e irritar a irmã.

Larguei o vestido e decidi comprar uma camiseta maior da que estava usando, afim de vesti-la depois do trabalho, porque tinha combinado de sair com meu namorado e não queria parecer tão horrorosa na frente dos seus amigos. Escolhi uma com os dizeres “Sorry, I can’t. I have plans with my cat.” Fiquei na fila do caixa ainda sentindo os mesmos olhares de antes, mas naquele momento eu já entendia que estava vestida de dinossauro verde e roxo e fiquei torcendo pra ficar invisível ou simplesmente estar vestida de outra coisa, mas não isso.

Quando encontrei meu namorado tentei fingir naturalidade, porque não queria assustá-lo por estar desse jeito. Ufa, que alívio, ele não percebeu nada. Mesmo com todo mundo me olhando feio, ele não notou nenhuma diferença. Ele só me perguntou se eu estava me sentindo bem e expliquei que estava me sentindo ainda com sono, um pouco cansada. O que era verdade, porque sempre que me visto de Darney é muito cansativo, são quilos e quilos de tecido e espuma, sem falar que faço muito esforço pra conseguir falar e ser ouvida claramente, porque a cabeça de dinossauro abafa todos os sons que saem da minha boca. É claro que também é muito difícil de escutar o que as pessoas estão realmente falando. Meus ouvidos ficam com essas camadas atrapalhando tudo. O mesmo acontece com os carinhos. As vezes não consigo senti-los.

Me despedi dele quando chegou em sua estação e continuei ali sentada, incomodando as pessoas porque eu ocupo espaço demais com a cauda e tudo mais. Fiquei lendo meu livro e somente nesse momento eu esqueci que estou vestida de Darney e quando percebi o metrô já estava na estação final e tinha que andar pro trabalho. Chegar no trabalho foi o mesmo desafio daquele de andar até a petshop. Tive a sensação de muitos olhares e de estar complicando a locomoção das pessoas. Muitas vezes escutei ciclistas anti-dinossauros se aproximando para me abordarem e me machucarem, mas quando eu virava eram apenas pessoas comuns andando de bicicleta.

Cheguei no trabalho tendo a sensação de que a roupa estava mais pesada e maior do que antes e tentei correndo tirar a roupa de Darney, mas eu não consigo alcançar o zíper sozinha. Meu braços, curtos e grossos de Darney, estão sem a flexibilidade que geralmente tenho. E a roupa vai ficando mais pesada e mais cheia conforme os anos vão passando. Tenho certeza que hoje só conseguirei tirar essa fantasia de dinossauro quando eu chegar em casa, com a ajuda do meu namorado e dos meus gatos. Curioso como os gatos, mesmo sem polegares opositores, são ótimos em abrirem a roupa de Darney.

E simplesmente espero que amanhã eu acorde sendo eu mesma de novo, porque é exaustivo fingir estar sendo uma pessoa não vestida de dinossauro de espuma pessimista.