A mulher que distribuía doces


Illustrations for a guide book of Paris finest pastry shops por HSIAO-RON CHENG

Hilda tinha o hábito de distribuir doces. Assim, simples e gratuitamente. Ela fazia isso de bom grado, pelo simples fato de querer agradar as pessoas. Ela acreditava que ao fazer isso, teria a estima dos outros. Para alguns presenteava com cestas fartas, para outros com pequenas porções. Em alguns casos ela mesma preparava os doces, afinal algumas pessoas possuem certas alergias ou intolerâncias, mas na maioria eram doces que ela adquiria de terceiros. Eram doces variados, ora de tabuleiro, ora de colher e até mesmo alguns folhados bem trabalhosos e demorados de se fazer. E Hilda fez isso por toda a sua vida. Se tinha doces nas mãos, os distribuía.

Exatamente por ser uma amante de doces foi que começou esse hábito. Ela atribuía que os doces a tornariam mais amável, mais agradável e até mais desejável. Porém, quando adolescente houve um terrível acontecimento. Um desses típicos caras malandros que vivia agarrado em uma estimada amiga, estava sempre petiscando os doces que Hilda dava afetuosamente a ela. Certa vez ele até chegou a dizer que Hilda teria todo o amor que ela sempre sonhou se lhe desse alguns doces. Mas ela não queria lhe entregar doce algum. Não para ele. Ela tinha nojo dele. Porém ele tomou mesmo assim. Ele não tomou com força física, mas ele tinha uma fala mansa, era chantagista. Por ser suja e vazia, tal lembrança foi muito bem escondida pelo cérebro de Hilda, mas agora ela não tinha mais nojo deste malandro, mas sim paúra. E aí, eis que então, noutro dia esta memória ressurgiu, como uma bailarina quando abrimos uma caixinha de jóias.

Além deste, outros acontecimentos recentes fizeram com que ela colocasse a distribuição de doces em questão. Já havia algum tempo que ela escutara de uma comadre, enquanto esta e outras estavam no carteado com Hilda, que os doces dela estavam um pouco puxados no açúcar – mas deixara claro que não era sempre, mas que quando acontecia, incomodava a sensibilidade dos dentes dela. Entretanto ela dissera ser agradecida pela boa vontade de Hilda.

Todavia aquilo bateu mal em Hilda. Ela nunca pensou que seus doces poderiam causar incômodo nos dentes de alguém. Ela sempre quis apenas proporcionar um momento de prazer e conforto com seus doces e jamais algum prejuízo. Esse dia ficou no fundo da memória de Hilda como aquela coceira na garganta que arranha quando vamos dormir ou quando estamos numa sala de espera em silêncio.

Em seguida, seu marido a culpou de estar muitas vezes nauseado por causa dos doces. Noutro dia ele se queixou de que ela estava dando doces demais a ele. E isto doeu como receber uma paulada, porque muitas vezes foi ele quem pediu os doces a Hilda. Quantas vezes nos finais de semana ele pediu uma sobremesa? E ainda ameaçou que se ele apresentasse sinais de diabetes, seria por obra dela e essa mania de doces. Mas era ele quem chegava com tantos pedidos e até mesmo com chocolates para comerem juntos.

Ela se sentiu envergonhada por sair por aí dando coisas nauseantes e que causavam incômodos nos dentes dos outros, enquanto ela julgava estar distribuindo coisas gostosas e reconfortantes. Hilda queria sumir, fugir, mudar de nome, de país, de cor de cabelo. Queria entender como nunca conseguiu perceber que um hábito que julgava ser tão bom era na verdade inconveniente.


Illustrations for a guide book of Paris finest pastry shops por HSIAO-RON CHENG

E pela primeira vez em toda sua história percebeu que isto precisava ser uma permuta justa. Hilda viu que, sim, estava simplesmente dando doces sem nem ao menos ser solicitada e isso não fazia o menor sentido. Ela não queria parar de distribuir doces, porque isso dava prazer e alívio a alguns, mas agora ela reconhecia que precisava de limites e negociações.

Ela tentou fazer isso guardando todos os doces para si, mas acabou comendo demais sozinha, teve dor de barriga e teve pessoas à sua porta esmurrando com agressividade exigindo o que ela sempre deu de boa vontade. Ela não sabia mais o que fazer. Ela se sentia perdida e ferida. Ela não sabia se queria continua sendo aquela Hilda, a mulher que distribuía doces.

Decidiu então procurar especialistas e eles lhe fizeram diversas perguntas interessantes. Perguntaram a que pessoas ela distribuía os doces e o porquê dessa escolha. Perguntaram também porque ela havia começado a fazer isso.

E daí a ajudaram a montar um plano de estratégia. Ela percebeu que não precisava doar tantos doces e muito menos para qualquer pessoa. Ela recebia alguns e redistribuía, mas precisava aprender a negá-los ou até mesmo aceitar doces diferentes de outras pessoas que ela nunca sequer pensou em aceitar e que só deveria distribuir a quem fosse merecê-los.

É uma tarefa árdua, trabalhosa e que consome muita energia mas os especialistas que cuidam dela e a auxiliam dizem que Hilda é muito determinada e  comprometida. Eles garantem, todas as vezes que ela os visita que, eventualmente, Hilda conseguirá dominar a arte de distribuir doces de maneira incrível e autônoma.


Illustrations for a guide book of Paris finest pastry shops por HSIAO-RON CHENG

Em desarmonia


The Last to Fall por Dan-ah Kim

Semana passada meus medicamentos foram todos alterados e tenho sofrido bastante com a abstinência do antigo antidepressivo.

Antes de falar qualquer coisa quero deixar registrado que simpatizo com todos aqueles que se reabilitaram e decidiram encarar a abstinência de alguma substância, principalmente de drogas pesadas.

Eu estou passando dias horríveis de tremedeiras, retenção hídrica, formigamento, tonteiras, dores de cabeça, ouvido entupido, náuseas e outras reações por causa de um medicamento legal e que está sendo supervisionado pela minha médica. Por esse motivo, quando alguém me diz que é ex usuário de drogas, eu cumprimento e digo que admiro muito sua coragem e sua determinação. Digo também pra se manter forte e que a partir daquele momento esta pessoa está registrada na minha memória como alguém para se lembrar como exemplo de superação, pois somente quem encara uma abstinência química entende o que é isso, desde os leves aos mais pesados efeitos.

Conheço poucas pessoas que admitem conhecer a sensação de uma compulsão, de um impulso incontrolável do seu corpo.  Aos olhos da maioria parece simples e fácil a ideia de se reabilitar de uma química, porque o ser humano tem essa mania estúpida de achar que é capaz de controlar tudo inclusive os próprios impulsos, o próprio metabolismo.

Dito isto, posso prosseguir que além de sentir que meu corpo está em desarmonia com a minha mente, sinto que eu estou em total desarmonia com os outros.

Tive essa sensação no fim de semana onde me senti como um rádio quebrado onde tentava sintonizar uma estação, mas nunca conseguia tocar uma música sem chiados. Ou como aquela bailarina do corpo de baile que tenta fazer a coreografia, mas parecia estar escutando uma música diferente, num cenário diferente, com personagens diferentes.

Sem falar que todas essas memórias e lembranças que venho desbloqueado estão deixando a minha linha do tempo fora de ordem e estou perdida dentro do meu próprio tempo. As pessoas próximas a mim sabem que eu realmente fiquei muito estarrecida com a descoberta que a regra da vantagem do vôlei acabou há 18 anos. Dentro da minha noção de tempo, a última vez que prestei atenção num jogo de vôlei foi há uns 8 anos e não há 18.

 


The Stars Are Against Me Tonight por Dan-ah Kim

Eu tenho feito sempre a analogia de ser uma paciente psiquiátrica com alguém com diabetes ou hipertensão. Pois são doenças incuráveis, porém controláveis. E assim como as doenças psiquiátricas, essas sofrem os estigmas da sociedade e são banalizadas porque são silenciosas que vão agindo lentamente. Doenças que erroneamente são atribuídas à determinado grupo de pessoas. Seja por idade, gênero, cor ou até mesmo classe social, quando todas estas citadas podem acometer qualquer um.

Todas essas doenças podem ser fatais caso não sejam tratadas. Uma pessoa diabética pode morrer com uma topada, um hipertenso pode morrer com falência renal ou até mesmo com algum outro órgão comprometido. Já os pacientes psiquiátricos se tratam para suportar os próprios transtornos, do contrário, se tornam loucos. E loucura é uma doença terminal. Não existe cura pra loucura. Não existe volta.

Estou falando de loucura e não de qualquer adjetivo pejorativo que é usado de maneira frívola para instabilidades, desequilíbrio ou histeria mal interpretada. Por mais que hoje em dia se use outros termos médicos para descrever e diagnosticar a loucura, o meu maior medo é de ficar realmente louca.

Por isso que venho aqui nesse blog e exponho todas essas ideias, porque acredito que uma vez que deixo meus pensamentos evidentes, eles se tornam mais compreensíveis pra mim. Também escrevo aqui porque tenho tido dificuldade de falar individualmente com pessoas, mas ainda assim eu gostaria de falar alguma coisa pra elas. Até porque muitas pessoas estão me procurando para falar do que estão lendo o que escrevo aqui e me contam suas experiências e dão suporte.

Me sinto em desarmonia em quase todas as esferas da minha vida, mas incrivelmente me sinto mais em sintonia comigo mesma como nunca antes me senti. E tenho certeza que esse é o propósito de se estar viva.


Where We Belong por Dan-ah Kim

Modus Operandi


L’hynose, les echos week-end por Marion Fayolle

Um dos maiores desafios que eu enfrento é tentar explicar pras pessoas que convivem comigo de que algumas coisas tão simples, como sair de casa para ir ao mercado ou até mesmo escolher a roupa que vou vestir, regularmente se tornam tarefas tão cansativas quanto correr ou levantar peso, porque sofrer de transtorno obsessivo compulsivo e ansiedade social faz com que uma decisão simples e rotineira se transforme em um suplício.

Darei um resumo do processo diário que é sair de casa até chegar no trabalho:

Depois de escovar os dentes e calçar os sapatos, arrumo a minha mochila e vou fazer xixi. Eu preciso sair imediatamente de casa, caso contrário terei que fazer xixi de novo, porque já vai ter dado tempo de ter xixi na bexiga e irei fazer xixi na calça quando estiver na rua já que eu não fiz xixi precisamente antes de sair de casa. Uma vez que passo pela porta, verifico pelo menos 2 vezes se realmente a tranquei e umas 3 vezes se não deixei a chave da galeria de arte onde eu trabalho cair quando guardei as de casa. Hoje em dia já não abro a bolsa toda hora, porque tenho medo de que as coisas caiam ou que alguém pegue algo, mas fico tateando por fora pra sentir os objetos no lugar. Entro no elevador e verifico se guardei o celular dentro da mochila, sendo que eu acabei de verificar junto com as chaves. Desço as escadas do metrô e entro sempre pela mesma catraca da estação. Não gosto de usar outra catraca. Quando uso outra catraca, porque aquela está desligada ou tem muita gente, me sinto na obrigação de mudar também a escada pela qual vou descer. Normalmente uso as escadas comuns, afinal assim já queimo calorias, porque estou gorda, mas caso eu desça pela escada rolante porque entrei pela catraca errada, me sentirei culpada por desperdiçar um tempo que eu poderia estar queimando calorias. Entro no vagão das mulheres(sempre) e só me sinto confortável se vou na ponta do vagão. Me sinto exposta e vulnerável no meio do vagão. Durante todo o trajeto eu verifico inúmeras vezes se meu celular está na mochila. Eu não consigo nem calcular quantas vezes isso acontece. Saio do trem e verifico se meu celular caiu da minha bolsa no vão entre trem e plataforma e sigo para a escada comum, pelo mesmo motivo de querer queimar calorias já que estou gorda e eu não quero que as outras pessoas achem que estou gorda porque prefiro usar escadas rolantes. Eu não uso a mesma saída do metrô em dias consecutivos. Tenho medo de ser perseguida ou de alguém perceber que saio sempre no mesmo horário pela mesma saída do metrô. Por isso, alterno as saídas. Enquanto eu ando na estação, verifico mais algumas vezes se meu celular está no mochila e coloco a chave da galeria no bolso da calça. Até chegar na porta da galeria, além de verificar se o celular está na bolsa junto com as chaves de casa, também vejo se a chave da galeria caiu do meu bolso. Enfim, chego no trabalho.


Diagnostiquer les troubles mentaux por Marion Fayolle

Esse só é um exemplo do que acontece na minha cabeça quando só estou andando ou estou com cara de paisagem no transporte público ou até mesmo tendo uma agradável conversa com alguém. Eu tenho pensamentos obsessivos e ansiosos o tempo inteiro. São raros os momentos do meu dia em que consigo focar em uma coisa e não deixar qualquer outro pensamento afetar aquilo.

O que eu descrevi acima é meu estado normal, meu estado controlado de raciocínio, porque quando estou em pico de ansiedade as vezes as situações prováveis na minha cabeça envolvem colisões de trens, ataques terroristas, pessoas me batendo e outras coisas bem surreais de acontecer e como resposta meu corpo responde com coceiras, estalar dedos e puxar cabelo da nuca.

Me requer um esforço monumental não deixar esses pensamentos correrem solto e colocar em foco o que eu preciso resolver no momento. É como organizar um cômodo entulhado com uns furões correndo loucamente entre as coisas e derrubando tudo no chão e você tentando colocar tudo no lugar enquanto eles derrubam tudo de novo. Usando essa analogia, eu sei que preciso em algum momento não me importar mais quando uma coisa ou outra cair por causa dos furões. Acidentes acontecem. Não posso controlar tudo. Mas é aí que entra a compulsão do transtorno: eu simplesmente não consigo parar de fazer isso.

E é por isso que eu tenho tanta dificuldade em determinadas situações sociais pra me sentir à vontade e, como é uma coisa que ninguém vê, é complicado entender que me sinto como se estivesse fisicamente inapta a me mexer, a andar, a respirar no meio das pessoas. Eu acredito que se todos lembrarem que as outras pessoas podem estar vivendo uma batalha épica para simplesmente entrar numa estação de metrô, com certeza seríamos seres humanos mais saudáveis.

Sobre tomar remédios psiquiátricos


Chemicals por Ashley Mackenzie

Uma amiga me procurou tem uns dias pra saber se estou tomando o mesmo antipsicótico que a psiquiatra receitou pra ela. Eu disse que sim, na mesma dosagem inclusive. Ela quis saber sobre os efeitos colaterais, porque quando leu a bula viu que o efeito mais comum é o aumento de peso e ela não quer engordar nada. Aliás, ela já não tem uma relação saudável com o próprio corpo e ganhar o peso que for está fora de cogitação. Conversei com ela e decidi escrever sobre essa questão que vejo que atormenta muitas pessoas que começam um tratamento psiquiátrico.

Eu tomo o mesmo antidepressivo desde 2007 e somente esse ano eu saí da dose mínima para a máxima. É claro que tive medo dessa mudança, mas ainda foi um terreno seguro pois eu já estava acostumada a essa droga. Lidar com os efeitos colaterais de um medicamento psiquiátrico é tão aterrorizante quanto pensar em continuar tendo crises e é por isso que dá tanto medo. Com o antidepressivo aumentado eu tive insônia, contratura de todos os músculos do corpo, prisão de ventre e outros efeitos, porém, em poucos dias eu percebi que estava conseguindo segurar as pontas e evitando os surtos.

Como eu disse no post anterior, eu coloquei que o surto número 1 foi meu primeiro surto psicótico. Mas na verdade eu tenho tido surtos menores e não tão graves há mais de uma década. Eles se tornaram cada vez menos espaçados e cada vez mais intensos e perigosos com o passar dos anos. Aliás, lembro do meu primeiro surto com automutilação que foi em 2007, logo após a morte da minha avó, e foi por causa dele que me consultei a primeira vez com a minha psiquiatra.

Mas medicamentos psiquiátricos são tabu. Aliás, a psiquiatria no seu total é um tabu. Alguém que se consulta com um psiquiatra é vista por muitos como louca e, uma vez louca, se torna quase como um leproso ou incapaz. Sem falar do medo abissal em pensar na possibilidade de que você vai ter que tomar drogas lícitas pro resto da vida para conseguir sobreviver. Não há uma só pessoa que não fica com esse receio e muitas vezes nem se consultam com um psiquiatra pra nem dar chance disso acontecer.

Por isso é tão difícil tomar remédios. Só que isso é uma armadilha difícil de escapar. A pessoa acaba entrando numa bola de neve. Por não querer ser taxada como inválida socialmente não toma seus remédios ou toma de maneira descompromissada e, naturalmente, o seu estado mental não melhora ou até mesmo piora, pois a frustração e sensação de falha aumenta. Falar sobre o que está acontecendo se torna mais difícil e doloroso, porque agora tem que adicionar o fato do relapso com os remédios e a angústia se torna cada vez maior dominando a mente quase que integralmente.


Public Brains por Ashley Mackenzie

Confiar nas pessoas responsáveis pelo seu tratamento é crucial, pois só assim é possível mergulhar no que é receitado e proposto. Do contrário não existe análise, terapia, meditação ou religião que te ajude. Sem confiança não existe diálogo aberto e não é possível pro terapeuta fazer um diagnóstico correto e passar o tratamento adequado.

E não precisa pressionar ou apressar essa situação. A cada visita minha à psiquiatra eu consigo descrever melhor como eu me sinto e como tem sido meus surtos. O surto número 1 me fez revelar que tenho me machucado e daí alterações foram feitas nas dosagens e o antipsicótico foi adicionado. E foi graças ao antipsicótico que consegui reorganizar meus pensamentos e consegui reconquistar meu poder de fala e escrita, fazendo o meu tratamento na análise ser mais proveitoso e até mesmo me dando autoconfiança para criar um blog para falar do assunto.

Eu fiquei apavorada com a possibilidade de ganhar peso com ele, mas foi exatamente por esse pavor que se tornou óbvia a urgência de que também preciso expor meu transtorno alimentar que venho escondendo e não admitindo, porque cogitar não tomar um remédio para não engordar, sendo que eu venho me machucando regularmente, só demonstra o quanto estou doente. Macular o próprio corpo é um sintoma grave que pode levar à zona do suicídio. E foi isso o que pesei quando tomei o primeiro comprimido. Preferi assumir o risco de talvez engordar a continuar me odiando a ponto de me agredir fisicamente ou pensar em acabar com tudo de uma vez. E após sentir que reconquistei meu poder de fala, desbloqueei memórias e abri meus traumas fazendo com que meu autoconhecimento se aprofundasse. Isso dói muito e muitas vezes saio da análise em estado catatônico ou em choque, mas eu me sinto cada vez mais conectada comigo mesma.

Quando me perguntam se estou melhor eu respondo que devo estar, porque estou me respeitando mais. Respeito mais meus machucados, minhas dores e meus surtos. Respeito mais os meus limites e as minhas dificuldades. Agora eu encaro meus transtornos como eu encararia uma doença autoimune ou diabetes, onde sem remédios e sem concernir o que me acomete eu posso ter graves complicações. Eu não respondo que estou melhor, porque na verdade eu ainda não me sinto bem. Ainda não me sinto confortável na minha pele. Ainda me sinto aterrorizada com o fato de que preciso de medicamentos controlados para conseguir viver em sociedade. Mas agora eu aceito e respeito isso.

E posso garantir que me sinto mais leve por saber que estou deixando todas as minhas personalidades, ainda desconexas, serem o que elas são. Cada dia é um passo dado e alguns dias parecem que voltei mais de um passo, mas de alguma maneira sinto que somente agora estou caminhando para algum lugar.


Filling in the Gaps por Ashley Mackenzie

A aceitação dos meus transtornos me libertou

healingHealing is Difficult | por Henn Kim

No dia 1º de julho de 2016 eu tive um surto psicótico que categorizei como o surto número 1. O considero assim, pois foi o primeiro onde eu tive comportamento real de suicídio. Além de estar totalmente fora de mim, cometi automutilações graves e cheguei ao delírio descontrolado de querer tirar minha própria vida. Foi graças a ele que de alguma forma a minha mente doente e ferida atingiu o externo, porque eu teria que esconder todas as marcas e hematomas que eu tinha provocado pelo corpo e no rosto. Graças a ele não tinha mais como eu esconder que, contrariando as minhas palavras, eu não estou bem.

Eu já estava medicada com antidepressivo e ansiolítico. E já tinha até diminuído a dosagem, mas eu me mudei, comecei um emprego novo e por motivos de logísticas e agendas eu parei de ver minha terapeuta tinha mais de um mês. Eu fiz terapia com ela por 12 anos e sou muito grata por toda ajuda que ela me deu, mas além do desencontro de horários, eu já estava sentindo que ela não me tirava mais da zona de conforto. Aliás, as coisas já estavam distorcidas por eu pensar na terapia com um carinho materno, quase como um colo. E terapia ou análise é pra doer, pra tirar pus, secreção, pústulas da mente. E tudo isso dói só de tocar, quanto mais futucar.

Encontrei a minha psiquiatra na mesma semana e alguns diagnósticos foram feitos. Eu saí do “sofro de depressão, ansiedade e síndrome do pânico” e entrei na zona dos transtornos: Transtorno Depressivo Maior, Transtorno de Ansiedade Social, Transtorno Obsessivo Compulsivo, Transtorno de Personalidade Limítrofe ou Borderline, Transtorno Alimentar e Agorafobia. Ela aumentou a dose do antidepressivo para a máxima, aumentou dosagem e posologia do ansiolítico e me receitou, pela primeira vez, o assustador antipsicótico. Ela me explicou que o antipsicótico me ajudaria com essa questão da automutilação e estabilizaria os meus humores, pois eu estava oscilando de deprimida mórbida à ansiedade paranóica em piscadas de olho.

Saí abalada do consultório e senti como ter recebido uma condenação. Passei na farmácia e comprei logo todos os medicamentos. De noite, chorei copiosamente quando tomei o primeiro comprido do novo remédio. Chorei de medo. Medo de não melhorar com ele, medo de melhorar com ele, medo de ter que aumentar a dosagem, medo de ter muitos efeitos colaterais, medo de acreditar que eu deixaria de ser eu mesma. Medo.

healingThe End of the Story | por Henn Kim

Poucos dias depois eu comecei a análise com uma nova pessoa. Escolhi um psicanalista, homem e mais velho. Já na primeira sessão percebi que tinha acertado na escolha de tratamento. Antes fiz psicoterapia e agora eu estou em análise. Saí da sessão com dois hadoukens na cara e já tonta de informações e sentimentos.

Demorei alguns dias para me adaptar ao antipsicótico, pois me deu um sono avassalador, mas assim que meu metabolismo se acostumou e eu fiquei novamente disposta, eu comecei a viver sensações e sentimentos que achei ter perdido. Minha criatividade voltou, comecei a me sentir mais articulada, a explorar meu vocabulário em português e em outros idiomas como nunca antes explorado, retomei meu ritmo desenfreado e delicioso de leitura, foco e atenção voltaram a ficar afiados e entre outras coisas.

Não estou falando isso pra falar que a solução está num comprimido, porque não está. Ouso dizer que devo grande parte da minha lucidez à análise, onde venho expondo e abrindo cada vez mais os meus traumas, as minhas feridas e meus medos. Porém foi quando percebi que, de alguma forma que não sei explicar, agora estou no tratamento correto, foi quando decidi sair do armário.

Decidi fazer um post no Facebook para a minha lista de amigos, parentes e colegas de trabalho onde eu expliquei que vinha mentindo para quase todos eles, porque eu dizia que está tudo bem quando nada está bem pra mim. Falei dos meus diagnósticos, dos meus tratamentos e deixei claro que não me importo nem um pouco se quiserem me tachar de louca, pois eu já aceitei que meu pior inimigo sou eu mesma e estive, e as vezes ainda me deparo, à beira de perder essa guerra, por isso pouco me importa mais se eu for colocada de louca ou algum outro adjetivo pejorativo.

Finalmente aceitei e comecei a encarar a minha condição: estou doente. E por estar assim tenho minhas limitações e minhas dificuldades. Aceitar meus diagnósticos também orientou a mim e as pessoas que estão fazendo parte desse processo do que está acontecendo e a melhor maneira de agir e me tratar. Muitas pessoas me falaram que não preciso de rótulos, mas na verdade eles vieram para me libertar.

Quando decidi falar percebi que não só tenho muitas pessoas à minha volta dispostas a ouvir para me ajudar, mas muitas pessoas dispostas a compartilhar experiências para me ajudar. Senti como esta empatia, essa partilha de machucados, ajuda pra quem fala e pra quem escuta. Por isso estou aqui digitando esse monte de palavras que vomito pelos dedos, porque elas precisam sair e acredito que pode acolher os outros.

E assim, desculpe pelos transtornos. Estou realmente trabalhando para melhor me atender. Desejo a todos uma boa leitura.

healingNobody knows the real me | por Henn Kim