Fora da névoa

The Diminishing Present, 2007 por Edgar Martins

O segredo, às vezes, para conseguir caminhar e sair de uma estrada enevoada é encontrar a dosagem certa. Em alguns casos a medicamentosa, em outros a da influência de certas pessoas na sua vida. No meu caso para conseguir sair desse coma em que eu estive precisei dos dois. E honestamente não consigo dizer qual deles foi o mais difícil de enfrentar pra conseguir me enxergar e me sentir fora da névoa.

Encontrar a dosagem ideal de um medicamento é como uma loteria. Não tem como saber o que vai dar certo, é tudo na tentativa e erro. E isso é uma merda. É o risco que se corre, mas é aquele ponto que já falei aqui anteriormente: esse é o caminho da ajuda que você procurou por estar no limite, em desespero, sem ver mais esperança, em alguns casos não conseguindo mais sair da cama ou de casa. Cada um sabe seu motivo pra procurar um tratamento psiquiátrico e é preciso relembrar dele sempre que se entra nesse momento de ajuste de dose ou mudança de medicamento.

Digo isso porque pode parecer que está tendo uma recaída ou estar piorando. Os medicamentos podem começar a atrapalhar a sua rotina em vez de ajudar, alterando seu foco, sua memória, sua energia e até mesmo sua libido. No meu caso me sentia numa eterna TPM somada com uma ressaca, onde me sentia prostrada, sensível e sem muita concentração quase que o tempo todo. Eu tentava ler, fazer sudoku, estudar e não conseguia. Começou afetando meu rendimento no trabalho, onde eu estava esquecendo tarefas que antes eu fazia automaticamente, e até pouco tempo eu estava com dificuldades em ter conversas simples com as pessoas.

The Diminishing Present, 2007 por Edgar Martins

Por isso que ter uma relação de confiança com o seu psiquiatra é tão importante. É preciso vê-lo com frequência e relatar tudo o que está passando e sentindo, só assim é possível ajustar a dose para o seu ideal. Não existe uma fórmula perfeita que funcione para todos. Um medicamento pode funcionar muito bem para uma pessoa e pode ser uma bomba para outra. A única pessoa que pode realmente te aconselhar sobre isso é o seu médico, no máximo, o psicanalista ou psicoterapeuta pode dar algum palpite, mas lembre-se que saúde mental é tão saúde quanto a física e deixe para ser tratada por profissionais.

Ter suporte de amigos e familiares é muito importante, posso dizer que é crucial pra essa jornada, porém nada substitui o tratamento de terapia ou análise. O terapeuta estudou por anos para entender e analisar o seu discurso e suas questões com o propósito de descobrir e te ajudar a superar seus traumas e dificuldades sem projetar expectativas ou sentimentos. Não ache que uma conversa com amigos ou com sua mãe será o mesmo que ter sessões de análise ou psicoterapia, porque não é.

E é tudo num ritmo lento, porque, mais uma vez, eu digo que estamos lidando com um organismo vivo e não com uma máquina e tudo leva um tempo para ser processado e metabolizado. Precisamos ser pacientes com nós mesmos e nos dar tempo para deixar nossos corpos e mentes se adaptarem aos medicamentos, porque eles não são milagrosos e eles não vão fazer efeito de uma hora para a outra. Nesse processo a lição mais importante que aprendi é ser mais gentil comigo mesma. Gentil com meu corpo, com a minha mente e com a maneira que gasto meu tempo. Descobri que só posso exigir gentileza dos outros depois que eu for gentil comigo mesma.

The Diminishing Present, 2007 por Edgar Martins