Sou uma vencedora

I’m not mad, I’m hurt por Henn Kim

Hoje eu venci.

Simplesmente porque consegui sair de casa, sem me atrasar, para trabalhar nesse sábado chuvoso. Foi a minha terceira semana consecutiva sem folga, com uma infiltração no banheiro de casa onde escorre água pela parede e tem que enxugar o chão constantemente há pelo menos 8 dias. Tudo bem que hoje não enxuguei quando acordei, só desviei das poças, porque não tive forças, mas consegui me arrumar, dar comida pros gatos, limpar as caixinhas de areia e sair de casa a tempo.

Fui para o trabalho sabendo que iria trabalhar sozinha. Geralmente trabalhamos em dupla, porém, hoje, passei o meu meio período solitária na galeria. O que para o meu estado mental atual é bem ruim. Porque mesmo que eu esteja trabalhando e não conversando necessariamente, ter uma companhia, uma presença física, é sempre bom e me dá segurança. Do contrário só fica o barulho do ar condicionado e o medo de que possa acontecer alguma coisa a mim ou à galeria.

Estou enfrentando o meu pior período de depressão. Todos os dias me sinto massacrada por pensamentos de desistência e derrota e é uma constante luta para me manter na rotina, para me manter em funcionamento e seguir em frente. As pessoas me perguntam como eu estou e mais uma vez entrei numa fase em que eu minto e digo que está tudo bem para não causar constrangimento ou aprofundar a conversa, mas na verdade estou apenas viva. É claro que ainda me acontecem coisas boas, mas nem sempre consigo ter prazer nelas.

Bad Day por Henn Kim

Atualmente eu estou tomando quatro medicamentos psiquiátricos. Dois antidepressivos. O segundo foi adicionado recentemente quando eu relatei alguns sintomas pra minha psiquiatra. Eu contei a ela que eu estava sentindo um frio constante, tremedeira pela manhã, acessos de sono durante o dia e muita dificuldade para acordar. Também contei que fiz vários exames para descartar problemas com a tireóide, pressão alta, anemia ou qualquer outra coisa. Eu disse que só restava a minha cabeça, pois todos os outros médicos me falaram que eu estava bem. E na hora ela disse que era tudo da depressão. Que eu estava profundamente deprimida e eram sintomas físicos.

O que tem me sustentado nisso tudo é amor das pessoas que me amam e, é claro, meu tratamento. Não tem sido fácil pras pessoas à minha volta, porque a depressão é ardilosa. Muitas vezes eu minto e me escondo, pra ficar enfurnada no escuro. Literalmente falando. Mas, a minha irmã por exemplo, já sabe ler os meus sinais e logo me arranca desse estado. Só que não é fácil, porque eu reluto, eu minto, falo que tá tudo bem. Num dia estou mais animada, no outro estou devastada. Ou eu tento sabotar um programa legal, porque acho que não mereço estar me divertindo. Não existe um manual para lidar com uma pessoa com depressão. Apenas muito amor, paciência e observação. É um processo lento, é individual e acima de tudo é muito doloroso.

Por isso, hoje eu venci. Consegui sair da cama, fui trabalhar vestida de maneira apresentável, fiz um bom atendimento, fui simpática. Sou uma vencedora.

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