Sobre ter T.O.C.

I don’t care if it hurts. I wanna have control.por You don‘t need to quit life to be dead

Antes eu não tinha consciência do quanto o meu Transtorno Obsessivo Compulsivo me afetava até começar meu tratamento psiquiátrico e começar a fazer psicanálise. Hoje em dia consigo ver que quando perdi meus 20kg em 2012 não foi porque estava obstinada, mas porque estava completamente obsessiva. Revejo meu comportamento alimentar e de exercícios físicos de janeiro de 2012 e final de 2014 e fico horrorizada em como ninguém viu que aquilo não era saudável mesmo não sendo um distúrbio alimentar padrão. Bem, na verdade algumas pessoas me questionaram, sim, se aquela loucura toda era saudável, mas elas jamais viram como TOC, simplesmente porque cada vez mais eu percebo que as pessoas não sabem muito bem o que é exatamente ter TOC.

O TOC é pintado como apenas querer organizar e padronizar objetos de maneira perfeita e no seu devido lugar ou em determinada posição. Antes de mais nada devo ressaltar que o transtorno é compulsivo, é fora do nosso controle, é mais forte que a gente. Quando se entra numa crise às vezes é impossível de sair. Hoje só consigo controlar, e pouco diga-se de passagem, porque estou bem medicada e porque estou fazendo análise. E mesmo assim é muito difícil, é exaustivo. A obsessão é a busca do perfeccionismo e do controle em tudo e não apenas em objetos. Quero que meu corpo, meus relacionamentos, meu trabalho, os meus estudos, minha mente, que tudo seja perfeito e esteja sob meu controle. Nisso fico me colocando em limites mentais e físicos e estou sempre me frustrando e buscando novos limites cada vez maiores. É uma bola de neve se não tratar.

Muitas vezes as pessoas acabam externalizando o transtorno é aí que aparecem aqueles comportamentos que já vimos em filmes como apagar as luzes ou lavar as mãos determinados números de vezes.

O.C.D. feels like… por Gemma Correll

Darei exemplos para vocês de alguns comportamentos que tive no período de 2012 a 2014:

  • Eu cortei os carboidratos e açúcares. Ah, lembrando que fiz tudo isso da minha cabeça, sem nutricionista. Bem errado mesmo. Só permitia um carboidrato por refeição. E pão. Nunca consegui cortar o pão. Mas tudo bem. No jantar era salada de folhas, tomates, legumes leves e feijão liberado ou soja. Aí, como eu era compulsiva, não vamos esquecer desse detalhe, tinha que comer mais, né? Eu fazia um snack saudável. Preparava a minha ~SAGRADA PIPOCA LIGHT~. Eu fazia com uma colher de sopa de margarina light(não tava nem aí se era saudável, o que importava eram as calorias) e com um pouco de água na panela. Usava o medidor de meia xícara de chá de milho e sabia que aquela porção teriam exatas 120 calorias. Eu tinha que comer isso TODOS OS DIAS. Isso mesmo. TODOS OS DIAS. Só me sentia satisfeita(quando me sentia satisfeita) se eu comesse a sagrada pipoca light. Eu sofria se fosse viajar e dormir em outro lugar porque não teria como comê-la. Sofria verdadeiramente. Isso por 2 fucking anos.
  • Teve a fase do mingau de aveia. Passei 4 meses jantando um mingau de aveia que era feito de aveia e leite de soja ou leite  desnatado. Mais uma vez, TODOS OS DIAS. E não enjoava.
  • Comecei a beber no mínimo 3 litros de água por dia. Passava o dia inteiro com uma garrafa na mão e caso ficasse sem a garrafa eu ficava intratável. Eu realmente fazia uma novela. Beber bastante água é saudável, a questão é que eu não sabia lidar com a ausência da garrafa.
  • Quando ia na academia eu ficava, no mínimo, 40 minutos em cada aparelho de ergometria. E eu fazia todos. Depois estipulei que o ideal era sempre no minimo 1 hora. Até que decidi comprar uma esteira. Quando comprei a esteira às vezes eu ficava até 2 horas correndo. Isso porque nos dois primeiros meses de dieta fui todos os dias na academia exceto domingos.
  • Quando saia pra algum evento social eu evitava ao máximo comer, porque acreditava que um diazinho iria colocar todo meu esforço por água abaixo. Sofria demais com qualquer pedaço de comida que ingeria fora da minha rotina, mesmo que fosse algo leve. E se fosse inevitável, tipo um jantar com meu pai, escolhia a coisa mais sem graça do cardápio. Acredito que posso contar nos dedos as vezes que comi macarrão nesse período.
  • Tudo tinha que ser light e sem gordura. E pior, eu carregava as pessoas à minha volta junto nessas obsessões. Pressionei meu ex-marido, na época casado comigo, a se alimentar melhor e a fazer exercícios também, quando viajei pra NY com a minha irmã fiz ela comer saladas o tempo inteiro.
  • Todas as calorias eram controladas e compensadas. Eu tinha que ter o controle do meu corpo, do que eu comia. Parei de usar escadas rolantes e elevadores e só usava as escadas comuns, assim queimava mais calorias. Todos os dias eu subia e descia as escadas da estação do metrô para ir e voltar do trabalho. As pessoas que trabalhavam comigo riam de mim.
  • Me sentia tremendamente culpada caso não fizesse os exercícios físicos. Eu só poderia sair com meus amigos ou só poderia relaxar nos dias de folgas se fizesse um pouco do que tinha proposto para gastar calorias. Do contrário, era como se eu estivesse fazendo algo muito errado e tudo seria em vão. Como se eu fosse dormir e no dia seguinte estaria com todos os meus quilos que tinha perdido de volta.

story of my life por Otariano

É claro que desenvolvi um distúrbio alimentar. Nunca cheguei a ficar sem comer de fato, mas tiveram momentos que preferi ficar sem comer a colocar em risco a dieta. E eu achava tudo muito normal e que as pessoas tinham que entender que essa era a minha escolha. Lembro-me que às vezes eu discutia com meu ex-marido ou com a minha mãe ou com a minha irmã sobre meu comportamento e chegava a tremer enquanto discutia de que não ia abrir mão da minha dieta. Só que eu já estava magra. Perdi 14 quilos só no primeiro mês. Perdi mais 5 no segundo. Tive que trocar meu armário inteiro, porque mais nenhuma roupa me servia.

Hoje a minha relação com meu corpo e com a comida é muito mais saudável. Com 1 ano de análise consigo aceitar meu corpo e consigo aceitar que comida é alimento e também ter prazer em comê-la em determinados momentos. Acima de tudo, consigo me sentir saciada, coisa que antes eu não conseguia.

Porém vejo que meu TOC usava essa válvula de escape. Agora reconheço outros comportamentos obsessivos. Fico neurótica com comentários não respondidos no Facebook, com o meu cabelo que não está na cor exata que eu gostaria e até mesmo com meus gatos, porque cismo de que não estou cuidando direito deles. Eu poderia falar uma infinidade de outros comportamentos obsessivos que eu tenho, mas acho que já consegui passar a mensagem que eu queria. E podem parecer pensamentos simples, mas eu fico obcecada com esses pensamentos, eu fico sofrendo com essas coisas, eu não paro de sofrer e crio cenários na minha cabeça e as vezes confundo com o que é realidade. É muito angustiante exatamente por ser compulsivo.

Depois da última avaliação com a psiquiatra e com a nova dosagem de medicamentos, eu tenho conseguido reconhecer mais as obsessões. Isso não significa que eu consiga sair delas todas as vezes, entretanto considero um grande avanço já reconhecê-las, pois assim eu já falo delas na análise.

O que eu quero dizer com esse texto é que ter TOC é muito diferente do que geralmente é pensado. É muito cansativo, angustiante e solitário, porque é viver num mundo de paranóias e aflições.

 

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