Hoje veio um kraken

Attack of Giant Squid por Martin Davey

Eu tenho a sensação que meu tratamento psiquiátrico é de estar aprendendo a pilotar um desses barcos de pesca de caranguejos gigantes que vão pro meio do mar não importa qual seja a condição climática.

Depois de um longo período que posso descrever como dias de tormenta, onde eu achava que meu barco iria virar e eu iria afundar, consegui segurar a barra e ficar de pé, viva. Agora estou num período muito mais tranquilo e equilibrado, me sinto mais centrada, menos obsessiva, menos deprimida.

E pensei nessa analogia, porque tive a sensação hoje de que entrei, de repente, numa tempestade terrível. Acho que não percebi as ondas aumentando lentamente, nem os ventos ficando mais fortes, mas hoje tá sendo um dia bem difícil. Principalmente porque veio um kraken e tentou seriamente destruir o barco.

E o lance todo é aprender a controlar e proteger esse barco, porque sei que sou capaz e que uma hora isso vai passar. Mas é difícil não pensar que, na verdade esse é o meu estado real e o outro é o passageiro. Que o kraken não vai destruir todos os planos e sonhos. Nessas horas dá vontade de sair correndo e se encolher naquele cantinho seguro. Todo mundo tem um. E aí me vem todas aquelas perguntas de auto crítica, porque se eu estava bem antes, como é que eu estou nesse estado agora? Onde foi que eu vacilei? Não seria melhor eu desistir de vez? Às vezes essa pergunta vem com tanta força que dói fisicamente.

Mais uma vez eu tenho que me forçar a colocar o barco no prumo e segurar a barra e acreditar que isso vai passar, que vou conseguir ficar naquele estado bom que consegui chegar nas últimas semanas. E ninguém faz ideia dos meus limites, das minhas fronteiras, na realidade. Esse é um barco pilotado apenas por mim.

A necessidade de estar fazendo alguma coisa

Reading is Dreaming with Your Eyes Open por Henn Kim

Eu não faço ideia se esse texto vai ficar bom, porque estou passando por um bloqueio brutal. Não estou conseguindo me concentrar direito em nada e isso tem me angustiado de maneira excruciante. Não consigo fazer as coisas com a facilidade e a qualidade habitual, como escrever, ler, fazer sudoku, palavra cruzada ou até mesmo ver televisão. Nada prende a minha atenção. Qualquer entretenimento ou atividade rotineira que exija concentração intelectual mínima está sendo um martírio e estou sofrendo de verdade com isso. Estou me sentindo amputada, desamparada.

E agora você deve estar indagando do que eu estou falando, porque eu estou escrevendo neste exato momento, o que é bem contraditório. E é, totalmente. Concordo com você. Mas acho que eu já deixei bem claro que a minha mente não faz o menor sentido.

Mais uma vez eu lembrei que criei esse espaço exatamente com o intuito de despejar em palavras, sensações e ideias, algumas vezes claras, outras vezes confusas, porém sempre com o intuito de me fazer bem e eu estou, agora mesmo, me sentindo muito melhor por estar digitando essas linhas.

Afim de sanar minha tormenta causada pela falta de concentração, há uns 3 dias, procurei minha psiquiatra e quis saber se esse meu estado mental seria algum efeito colateral dos medicamentos. E ela me disse o que no fundo eu já sabia, que eu tenho que ter paciência e dar tempo ao tempo. E aí eu me deparei com o meu pior pesadelo: o que fazer comigo mesma quando eu não consigo me concentrar em uma outra coisa. Enquanto procurava algo que segurasse a minha atenção, tropecei num texto que dizia que atualmente uma pessoa é vista como bem sucedida quando está sem tempo, porque quem tem tempo não é levada a sério.


The strongest hearts have the most scars por Henn Kim

Foi quando eu percebi mais uma doença da sociedade atual que me acomete e consome minha saúde mental e me questionei: por que eu preciso estar ocupada com alguma coisa o tempo todo? Por que eu simplesmente não posso ou consigo, por exemplo, ficar vendo o meu gato se lamber ou vendo as nuvens passando no céu? Por que as pessoas sempre precisam saber qual é a boa de hoje pra se divertir, não podem simplesmente não fazer nada sozinhas em casa? Quando foi que 24 horas se tornaram insuficientes para as pessoas terminarem seus afazeres?

Em vez de continuar me frustrando, eu desisti de forçar a minha leitura e a minha concentração. Específico a leitura, porque ler é o hábito que eu mais prezo nesta vida e me encontrar empacada nele me deixa exasperada. Eu preciso ocupar meu tempo livre com liberdade e não com ocupações e funções. Foi imposto de que é preciso ser produtivo o tempo inteiro, do contrário você é vagabundo ou irresponsável. Tenho procurado atividades que me relaxem e que preencham meu cérebro com grandes nadas. (Notem que eu continuo tentando ~ocupar~ meu tempo fazendo nada. Sem falar que foi uma coisa que não percebi sozinha.)

Acho que consegui escrever isso aqui exatamente porque estou conseguindo relaxar. Ainda não sei exatamente como isso funciona, porque acho que se eu soubesse eu não iria precisar me reabilitar sobre esse hábito. É tanta cobrança, por parte minha e da sociedade, pra ter o corpo ideal, ser multifunção, inteligente e dona de casa impecável, que terminei a semana passada chorando acreditando verdadeiramente estar ficando senil porque não consegui ler uma página inteira de um livro best-seller infanto juvenil, não tive concentração pra ver um episódio de Unbreakable Kimmy Schmidt e me vi repetindo frases em mensagens de texto ou até mesmo palavras em conversas faladas.

Cada vez mais me vem a sensação de que se eu fosse uma máquina eu estaria terminalmente quebrada e vejo a minha sorte por ser composta de neurônios e não de placas e peças, porque provavelmente eu teria queimado várias. E o mais curioso ao fazer essa comparação é porque tenho sentido mais necessidade de me conectar com a natureza, tanto o meio ambiente quanto a humana, para encontrar o que é necessário para minha mente estar saudável e em paz.


Beautiful Emptines por Henn Kim

Modus Operandi


L’hynose, les echos week-end por Marion Fayolle

Um dos maiores desafios que eu enfrento é tentar explicar pras pessoas que convivem comigo de que algumas coisas tão simples, como sair de casa para ir ao mercado ou até mesmo escolher a roupa que vou vestir, regularmente se tornam tarefas tão cansativas quanto correr ou levantar peso, porque sofrer de transtorno obsessivo compulsivo e ansiedade social faz com que uma decisão simples e rotineira se transforme em um suplício.

Darei um resumo do processo diário que é sair de casa até chegar no trabalho:

Depois de escovar os dentes e calçar os sapatos, arrumo a minha mochila e vou fazer xixi. Eu preciso sair imediatamente de casa, caso contrário terei que fazer xixi de novo, porque já vai ter dado tempo de ter xixi na bexiga e irei fazer xixi na calça quando estiver na rua já que eu não fiz xixi precisamente antes de sair de casa. Uma vez que passo pela porta, verifico pelo menos 2 vezes se realmente a tranquei e umas 3 vezes se não deixei a chave da galeria de arte onde eu trabalho cair quando guardei as de casa. Hoje em dia já não abro a bolsa toda hora, porque tenho medo de que as coisas caiam ou que alguém pegue algo, mas fico tateando por fora pra sentir os objetos no lugar. Entro no elevador e verifico se guardei o celular dentro da mochila, sendo que eu acabei de verificar junto com as chaves. Desço as escadas do metrô e entro sempre pela mesma catraca da estação. Não gosto de usar outra catraca. Quando uso outra catraca, porque aquela está desligada ou tem muita gente, me sinto na obrigação de mudar também a escada pela qual vou descer. Normalmente uso as escadas comuns, afinal assim já queimo calorias, porque estou gorda, mas caso eu desça pela escada rolante porque entrei pela catraca errada, me sentirei culpada por desperdiçar um tempo que eu poderia estar queimando calorias. Entro no vagão das mulheres(sempre) e só me sinto confortável se vou na ponta do vagão. Me sinto exposta e vulnerável no meio do vagão. Durante todo o trajeto eu verifico inúmeras vezes se meu celular está na mochila. Eu não consigo nem calcular quantas vezes isso acontece. Saio do trem e verifico se meu celular caiu da minha bolsa no vão entre trem e plataforma e sigo para a escada comum, pelo mesmo motivo de querer queimar calorias já que estou gorda e eu não quero que as outras pessoas achem que estou gorda porque prefiro usar escadas rolantes. Eu não uso a mesma saída do metrô em dias consecutivos. Tenho medo de ser perseguida ou de alguém perceber que saio sempre no mesmo horário pela mesma saída do metrô. Por isso, alterno as saídas. Enquanto eu ando na estação, verifico mais algumas vezes se meu celular está no mochila e coloco a chave da galeria no bolso da calça. Até chegar na porta da galeria, além de verificar se o celular está na bolsa junto com as chaves de casa, também vejo se a chave da galeria caiu do meu bolso. Enfim, chego no trabalho.


Diagnostiquer les troubles mentaux por Marion Fayolle

Esse só é um exemplo do que acontece na minha cabeça quando só estou andando ou estou com cara de paisagem no transporte público ou até mesmo tendo uma agradável conversa com alguém. Eu tenho pensamentos obsessivos e ansiosos o tempo inteiro. São raros os momentos do meu dia em que consigo focar em uma coisa e não deixar qualquer outro pensamento afetar aquilo.

O que eu descrevi acima é meu estado normal, meu estado controlado de raciocínio, porque quando estou em pico de ansiedade as vezes as situações prováveis na minha cabeça envolvem colisões de trens, ataques terroristas, pessoas me batendo e outras coisas bem surreais de acontecer e como resposta meu corpo responde com coceiras, estalar dedos e puxar cabelo da nuca.

Me requer um esforço monumental não deixar esses pensamentos correrem solto e colocar em foco o que eu preciso resolver no momento. É como organizar um cômodo entulhado com uns furões correndo loucamente entre as coisas e derrubando tudo no chão e você tentando colocar tudo no lugar enquanto eles derrubam tudo de novo. Usando essa analogia, eu sei que preciso em algum momento não me importar mais quando uma coisa ou outra cair por causa dos furões. Acidentes acontecem. Não posso controlar tudo. Mas é aí que entra a compulsão do transtorno: eu simplesmente não consigo parar de fazer isso.

E é por isso que eu tenho tanta dificuldade em determinadas situações sociais pra me sentir à vontade e, como é uma coisa que ninguém vê, é complicado entender que me sinto como se estivesse fisicamente inapta a me mexer, a andar, a respirar no meio das pessoas. Eu acredito que se todos lembrarem que as outras pessoas podem estar vivendo uma batalha épica para simplesmente entrar numa estação de metrô, com certeza seríamos seres humanos mais saudáveis.

Dia de Darney


Foto tirada por Estela Rosa (Buenos Aires, 2007)

 

Hoje eu saí de casa vestida de Barney. Barney aquele dinossauro roxo e verde da televisão.

A Wikipedia diz que Barney voltou 200 milhões anos a vida graças à imaginação das crianças e ele tem uma atitude bem positiva e bem otimista, e é adorado por todos. Mas acho que seria mais adequado eu dizer que saí vestida de Darney, a versão inversa de Barney, onde, além de não existir, tem o traseiro volumoso, pernas e braços largos e curtos, os pés são pequenos e no rosto uma imagem patética. Ok, até aí continua sendo que nem o Barney, mas o que difere é que Darney é bem negativo e bem pessimista, e é rejeitado por todos.

Então posso recomeçar dizendo que hoje eu saí de casa vestida de Darney.

Engraçado é que não foi de imediato que percebi que estava vestida assim. A princípio eu só achei estranho que tinha escolhido a minha melhor calça e uma blusa que julgo ficar ótima em mim estarem tão apertadas. Não tinha reparado que tinha colocado minhas roupas por cima do Darney. Mas continuei me arrumando, afinal escolhi roupas seguramente boas. Calcei meus tênis novos, que fiquei muito contente e satisfeita ao comprar anteontem, e me olhei no espelho. Achei que tinha algo errado. Parecia que minhas pernas estavam mais curtas e meus braços mais volumosos, mas prossegui com meu dia. Eu não podia me demorar. Percebi que estava difícil levantar do sofá ou sair de casa. Estava sentindo o peso por me vestir de Darney e achei que estava ficando mais resfriada.

Ao sair de casa notei que as pessoas olhavam pra mim e deixavam claro em suas expressões que eu estava ridícula. Segurei a alça da minha bolsa carteiro estampada com o Han Solo com força e andei mais rápido, porque eu não queria me atrasar. Entrei na petshop para comprar comida pros gatos e acho que a atendente não gosta muito de dinossauros, porque ela foi um pouco rude comigo. Ela já estava reclamando da merda de uma caixa que estava sempre atrapalhando a mexer nas tabelas de preço e como era incrível como sempre tinha alguém colocando de novo no lugar errado, mas eu ainda saí da petshop sentindo que ela não foi com a minha cara. Foi nesse momento que percebi que estava com uma cauda, porque eu fiquei esbarrando em tudo nas ruas e comecei a ter a sensação de que estava atrapalhando o trânsito das pessoas e até mesmo dos cachorros dos mendigos.

Precisava fazer uma hora para esperar meu namorado e irmos juntos para o trabalho, por isso entrei numa loja de roupas e onde eu me sentia mais confortável que esperar por ele na rua. Passando pelas araras vi muita coisa legal e decidi ver se um vestido ficaria bem em mim pendurando-o na minha frente enquanto me olhava no espelho.

E foi nesse momento que percebi que estava vestida de Darney. Nunca que aquele vestido iria ficar bem em mim. Como iria aquela cauda, aquela bunda e coxas ficar cobertas? E aqueles braços cheios de espuma não passariam nunca naquela manga. Olhei pro meu rosto e vi que os óculos estavam esquisitos, afinal a cabeça de Darney já estava um pouco surrada e estava um pouco torta. Mirei o cabelo na esperança de ainda ser o meu cabelo, mas lá estavam os cabelos sintéticos, como de uma Barbie que o irmão mais novo usou como pincel para lavar o box no banho e irritar a irmã.

Larguei o vestido e decidi comprar uma camiseta maior da que estava usando, afim de vesti-la depois do trabalho, porque tinha combinado de sair com meu namorado e não queria parecer tão horrorosa na frente dos seus amigos. Escolhi uma com os dizeres “Sorry, I can’t. I have plans with my cat.” Fiquei na fila do caixa ainda sentindo os mesmos olhares de antes, mas naquele momento eu já entendia que estava vestida de dinossauro verde e roxo e fiquei torcendo pra ficar invisível ou simplesmente estar vestida de outra coisa, mas não isso.

Quando encontrei meu namorado tentei fingir naturalidade, porque não queria assustá-lo por estar desse jeito. Ufa, que alívio, ele não percebeu nada. Mesmo com todo mundo me olhando feio, ele não notou nenhuma diferença. Ele só me perguntou se eu estava me sentindo bem e expliquei que estava me sentindo ainda com sono, um pouco cansada. O que era verdade, porque sempre que me visto de Darney é muito cansativo, são quilos e quilos de tecido e espuma, sem falar que faço muito esforço pra conseguir falar e ser ouvida claramente, porque a cabeça de dinossauro abafa todos os sons que saem da minha boca. É claro que também é muito difícil de escutar o que as pessoas estão realmente falando. Meus ouvidos ficam com essas camadas atrapalhando tudo. O mesmo acontece com os carinhos. As vezes não consigo senti-los.

Me despedi dele quando chegou em sua estação e continuei ali sentada, incomodando as pessoas porque eu ocupo espaço demais com a cauda e tudo mais. Fiquei lendo meu livro e somente nesse momento eu esqueci que estou vestida de Darney e quando percebi o metrô já estava na estação final e tinha que andar pro trabalho. Chegar no trabalho foi o mesmo desafio daquele de andar até a petshop. Tive a sensação de muitos olhares e de estar complicando a locomoção das pessoas. Muitas vezes escutei ciclistas anti-dinossauros se aproximando para me abordarem e me machucarem, mas quando eu virava eram apenas pessoas comuns andando de bicicleta.

Cheguei no trabalho tendo a sensação de que a roupa estava mais pesada e maior do que antes e tentei correndo tirar a roupa de Darney, mas eu não consigo alcançar o zíper sozinha. Meu braços, curtos e grossos de Darney, estão sem a flexibilidade que geralmente tenho. E a roupa vai ficando mais pesada e mais cheia conforme os anos vão passando. Tenho certeza que hoje só conseguirei tirar essa fantasia de dinossauro quando eu chegar em casa, com a ajuda do meu namorado e dos meus gatos. Curioso como os gatos, mesmo sem polegares opositores, são ótimos em abrirem a roupa de Darney.

E simplesmente espero que amanhã eu acorde sendo eu mesma de novo, porque é exaustivo fingir estar sendo uma pessoa não vestida de dinossauro de espuma pessimista.