Hoje veio um kraken

Attack of Giant Squid por Martin Davey

Eu tenho a sensação que meu tratamento psiquiátrico é de estar aprendendo a pilotar um desses barcos de pesca de caranguejos gigantes que vão pro meio do mar não importa qual seja a condição climática.

Depois de um longo período que posso descrever como dias de tormenta, onde eu achava que meu barco iria virar e eu iria afundar, consegui segurar a barra e ficar de pé, viva. Agora estou num período muito mais tranquilo e equilibrado, me sinto mais centrada, menos obsessiva, menos deprimida.

E pensei nessa analogia, porque tive a sensação hoje de que entrei, de repente, numa tempestade terrível. Acho que não percebi as ondas aumentando lentamente, nem os ventos ficando mais fortes, mas hoje tá sendo um dia bem difícil. Principalmente porque veio um kraken e tentou seriamente destruir o barco.

E o lance todo é aprender a controlar e proteger esse barco, porque sei que sou capaz e que uma hora isso vai passar. Mas é difícil não pensar que, na verdade esse é o meu estado real e o outro é o passageiro. Que o kraken não vai destruir todos os planos e sonhos. Nessas horas dá vontade de sair correndo e se encolher naquele cantinho seguro. Todo mundo tem um. E aí me vem todas aquelas perguntas de auto crítica, porque se eu estava bem antes, como é que eu estou nesse estado agora? Onde foi que eu vacilei? Não seria melhor eu desistir de vez? Às vezes essa pergunta vem com tanta força que dói fisicamente.

Mais uma vez eu tenho que me forçar a colocar o barco no prumo e segurar a barra e acreditar que isso vai passar, que vou conseguir ficar naquele estado bom que consegui chegar nas últimas semanas. E ninguém faz ideia dos meus limites, das minhas fronteiras, na realidade. Esse é um barco pilotado apenas por mim.

Sou uma vencedora

I’m not mad, I’m hurt por Henn Kim

Hoje eu venci.

Simplesmente porque consegui sair de casa, sem me atrasar, para trabalhar nesse sábado chuvoso. Foi a minha terceira semana consecutiva sem folga, com uma infiltração no banheiro de casa onde escorre água pela parede e tem que enxugar o chão constantemente há pelo menos 8 dias. Tudo bem que hoje não enxuguei quando acordei, só desviei das poças, porque não tive forças, mas consegui me arrumar, dar comida pros gatos, limpar as caixinhas de areia e sair de casa a tempo.

Fui para o trabalho sabendo que iria trabalhar sozinha. Geralmente trabalhamos em dupla, porém, hoje, passei o meu meio período solitária na galeria. O que para o meu estado mental atual é bem ruim. Porque mesmo que eu esteja trabalhando e não conversando necessariamente, ter uma companhia, uma presença física, é sempre bom e me dá segurança. Do contrário só fica o barulho do ar condicionado e o medo de que possa acontecer alguma coisa a mim ou à galeria.

Estou enfrentando o meu pior período de depressão. Todos os dias me sinto massacrada por pensamentos de desistência e derrota e é uma constante luta para me manter na rotina, para me manter em funcionamento e seguir em frente. As pessoas me perguntam como eu estou e mais uma vez entrei numa fase em que eu minto e digo que está tudo bem para não causar constrangimento ou aprofundar a conversa, mas na verdade estou apenas viva. É claro que ainda me acontecem coisas boas, mas nem sempre consigo ter prazer nelas.

Bad Day por Henn Kim

Atualmente eu estou tomando quatro medicamentos psiquiátricos. Dois antidepressivos. O segundo foi adicionado recentemente quando eu relatei alguns sintomas pra minha psiquiatra. Eu contei a ela que eu estava sentindo um frio constante, tremedeira pela manhã, acessos de sono durante o dia e muita dificuldade para acordar. Também contei que fiz vários exames para descartar problemas com a tireóide, pressão alta, anemia ou qualquer outra coisa. Eu disse que só restava a minha cabeça, pois todos os outros médicos me falaram que eu estava bem. E na hora ela disse que era tudo da depressão. Que eu estava profundamente deprimida e eram sintomas físicos.

O que tem me sustentado nisso tudo é amor das pessoas que me amam e, é claro, meu tratamento. Não tem sido fácil pras pessoas à minha volta, porque a depressão é ardilosa. Muitas vezes eu minto e me escondo, pra ficar enfurnada no escuro. Literalmente falando. Mas, a minha irmã por exemplo, já sabe ler os meus sinais e logo me arranca desse estado. Só que não é fácil, porque eu reluto, eu minto, falo que tá tudo bem. Num dia estou mais animada, no outro estou devastada. Ou eu tento sabotar um programa legal, porque acho que não mereço estar me divertindo. Não existe um manual para lidar com uma pessoa com depressão. Apenas muito amor, paciência e observação. É um processo lento, é individual e acima de tudo é muito doloroso.

Por isso, hoje eu venci. Consegui sair da cama, fui trabalhar vestida de maneira apresentável, fiz um bom atendimento, fui simpática. Sou uma vencedora.

Who are you when you’re alone por Henn Kim

Fora da névoa

The Diminishing Present, 2007 por Edgar Martins

O segredo, às vezes, para conseguir caminhar e sair de uma estrada enevoada é encontrar a dosagem certa. Em alguns casos a medicamentosa, em outros a da influência de certas pessoas na sua vida. No meu caso para conseguir sair desse coma em que eu estive precisei dos dois. E honestamente não consigo dizer qual deles foi o mais difícil de enfrentar pra conseguir me enxergar e me sentir fora da névoa.

Encontrar a dosagem ideal de um medicamento é como uma loteria. Não tem como saber o que vai dar certo, é tudo na tentativa e erro. E isso é uma merda. É o risco que se corre, mas é aquele ponto que já falei aqui anteriormente: esse é o caminho da ajuda que você procurou por estar no limite, em desespero, sem ver mais esperança, em alguns casos não conseguindo mais sair da cama ou de casa. Cada um sabe seu motivo pra procurar um tratamento psiquiátrico e é preciso relembrar dele sempre que se entra nesse momento de ajuste de dose ou mudança de medicamento.

Digo isso porque pode parecer que está tendo uma recaída ou estar piorando. Os medicamentos podem começar a atrapalhar a sua rotina em vez de ajudar, alterando seu foco, sua memória, sua energia e até mesmo sua libido. No meu caso me sentia numa eterna TPM somada com uma ressaca, onde me sentia prostrada, sensível e sem muita concentração quase que o tempo todo. Eu tentava ler, fazer sudoku, estudar e não conseguia. Começou afetando meu rendimento no trabalho, onde eu estava esquecendo tarefas que antes eu fazia automaticamente, e até pouco tempo eu estava com dificuldades em ter conversas simples com as pessoas.

The Diminishing Present, 2007 por Edgar Martins

Por isso que ter uma relação de confiança com o seu psiquiatra é tão importante. É preciso vê-lo com frequência e relatar tudo o que está passando e sentindo, só assim é possível ajustar a dose para o seu ideal. Não existe uma fórmula perfeita que funcione para todos. Um medicamento pode funcionar muito bem para uma pessoa e pode ser uma bomba para outra. A única pessoa que pode realmente te aconselhar sobre isso é o seu médico, no máximo, o psicanalista ou psicoterapeuta pode dar algum palpite, mas lembre-se que saúde mental é tão saúde quanto a física e deixe para ser tratada por profissionais.

Ter suporte de amigos e familiares é muito importante, posso dizer que é crucial pra essa jornada, porém nada substitui o tratamento de terapia ou análise. O terapeuta estudou por anos para entender e analisar o seu discurso e suas questões com o propósito de descobrir e te ajudar a superar seus traumas e dificuldades sem projetar expectativas ou sentimentos. Não ache que uma conversa com amigos ou com sua mãe será o mesmo que ter sessões de análise ou psicoterapia, porque não é.

E é tudo num ritmo lento, porque, mais uma vez, eu digo que estamos lidando com um organismo vivo e não com uma máquina e tudo leva um tempo para ser processado e metabolizado. Precisamos ser pacientes com nós mesmos e nos dar tempo para deixar nossos corpos e mentes se adaptarem aos medicamentos, porque eles não são milagrosos e eles não vão fazer efeito de uma hora para a outra. Nesse processo a lição mais importante que aprendi é ser mais gentil comigo mesma. Gentil com meu corpo, com a minha mente e com a maneira que gasto meu tempo. Descobri que só posso exigir gentileza dos outros depois que eu for gentil comigo mesma.

The Diminishing Present, 2007 por Edgar Martins

Dia de Darney


Foto tirada por Estela Rosa (Buenos Aires, 2007)

 

Hoje eu saí de casa vestida de Barney. Barney aquele dinossauro roxo e verde da televisão.

A Wikipedia diz que Barney voltou 200 milhões anos a vida graças à imaginação das crianças e ele tem uma atitude bem positiva e bem otimista, e é adorado por todos. Mas acho que seria mais adequado eu dizer que saí vestida de Darney, a versão inversa de Barney, onde, além de não existir, tem o traseiro volumoso, pernas e braços largos e curtos, os pés são pequenos e no rosto uma imagem patética. Ok, até aí continua sendo que nem o Barney, mas o que difere é que Darney é bem negativo e bem pessimista, e é rejeitado por todos.

Então posso recomeçar dizendo que hoje eu saí de casa vestida de Darney.

Engraçado é que não foi de imediato que percebi que estava vestida assim. A princípio eu só achei estranho que tinha escolhido a minha melhor calça e uma blusa que julgo ficar ótima em mim estarem tão apertadas. Não tinha reparado que tinha colocado minhas roupas por cima do Darney. Mas continuei me arrumando, afinal escolhi roupas seguramente boas. Calcei meus tênis novos, que fiquei muito contente e satisfeita ao comprar anteontem, e me olhei no espelho. Achei que tinha algo errado. Parecia que minhas pernas estavam mais curtas e meus braços mais volumosos, mas prossegui com meu dia. Eu não podia me demorar. Percebi que estava difícil levantar do sofá ou sair de casa. Estava sentindo o peso por me vestir de Darney e achei que estava ficando mais resfriada.

Ao sair de casa notei que as pessoas olhavam pra mim e deixavam claro em suas expressões que eu estava ridícula. Segurei a alça da minha bolsa carteiro estampada com o Han Solo com força e andei mais rápido, porque eu não queria me atrasar. Entrei na petshop para comprar comida pros gatos e acho que a atendente não gosta muito de dinossauros, porque ela foi um pouco rude comigo. Ela já estava reclamando da merda de uma caixa que estava sempre atrapalhando a mexer nas tabelas de preço e como era incrível como sempre tinha alguém colocando de novo no lugar errado, mas eu ainda saí da petshop sentindo que ela não foi com a minha cara. Foi nesse momento que percebi que estava com uma cauda, porque eu fiquei esbarrando em tudo nas ruas e comecei a ter a sensação de que estava atrapalhando o trânsito das pessoas e até mesmo dos cachorros dos mendigos.

Precisava fazer uma hora para esperar meu namorado e irmos juntos para o trabalho, por isso entrei numa loja de roupas e onde eu me sentia mais confortável que esperar por ele na rua. Passando pelas araras vi muita coisa legal e decidi ver se um vestido ficaria bem em mim pendurando-o na minha frente enquanto me olhava no espelho.

E foi nesse momento que percebi que estava vestida de Darney. Nunca que aquele vestido iria ficar bem em mim. Como iria aquela cauda, aquela bunda e coxas ficar cobertas? E aqueles braços cheios de espuma não passariam nunca naquela manga. Olhei pro meu rosto e vi que os óculos estavam esquisitos, afinal a cabeça de Darney já estava um pouco surrada e estava um pouco torta. Mirei o cabelo na esperança de ainda ser o meu cabelo, mas lá estavam os cabelos sintéticos, como de uma Barbie que o irmão mais novo usou como pincel para lavar o box no banho e irritar a irmã.

Larguei o vestido e decidi comprar uma camiseta maior da que estava usando, afim de vesti-la depois do trabalho, porque tinha combinado de sair com meu namorado e não queria parecer tão horrorosa na frente dos seus amigos. Escolhi uma com os dizeres “Sorry, I can’t. I have plans with my cat.” Fiquei na fila do caixa ainda sentindo os mesmos olhares de antes, mas naquele momento eu já entendia que estava vestida de dinossauro verde e roxo e fiquei torcendo pra ficar invisível ou simplesmente estar vestida de outra coisa, mas não isso.

Quando encontrei meu namorado tentei fingir naturalidade, porque não queria assustá-lo por estar desse jeito. Ufa, que alívio, ele não percebeu nada. Mesmo com todo mundo me olhando feio, ele não notou nenhuma diferença. Ele só me perguntou se eu estava me sentindo bem e expliquei que estava me sentindo ainda com sono, um pouco cansada. O que era verdade, porque sempre que me visto de Darney é muito cansativo, são quilos e quilos de tecido e espuma, sem falar que faço muito esforço pra conseguir falar e ser ouvida claramente, porque a cabeça de dinossauro abafa todos os sons que saem da minha boca. É claro que também é muito difícil de escutar o que as pessoas estão realmente falando. Meus ouvidos ficam com essas camadas atrapalhando tudo. O mesmo acontece com os carinhos. As vezes não consigo senti-los.

Me despedi dele quando chegou em sua estação e continuei ali sentada, incomodando as pessoas porque eu ocupo espaço demais com a cauda e tudo mais. Fiquei lendo meu livro e somente nesse momento eu esqueci que estou vestida de Darney e quando percebi o metrô já estava na estação final e tinha que andar pro trabalho. Chegar no trabalho foi o mesmo desafio daquele de andar até a petshop. Tive a sensação de muitos olhares e de estar complicando a locomoção das pessoas. Muitas vezes escutei ciclistas anti-dinossauros se aproximando para me abordarem e me machucarem, mas quando eu virava eram apenas pessoas comuns andando de bicicleta.

Cheguei no trabalho tendo a sensação de que a roupa estava mais pesada e maior do que antes e tentei correndo tirar a roupa de Darney, mas eu não consigo alcançar o zíper sozinha. Meu braços, curtos e grossos de Darney, estão sem a flexibilidade que geralmente tenho. E a roupa vai ficando mais pesada e mais cheia conforme os anos vão passando. Tenho certeza que hoje só conseguirei tirar essa fantasia de dinossauro quando eu chegar em casa, com a ajuda do meu namorado e dos meus gatos. Curioso como os gatos, mesmo sem polegares opositores, são ótimos em abrirem a roupa de Darney.

E simplesmente espero que amanhã eu acorde sendo eu mesma de novo, porque é exaustivo fingir estar sendo uma pessoa não vestida de dinossauro de espuma pessimista.