Hoje veio um kraken

Attack of Giant Squid por Martin Davey

Eu tenho a sensação que meu tratamento psiquiátrico é de estar aprendendo a pilotar um desses barcos de pesca de caranguejos gigantes que vão pro meio do mar não importa qual seja a condição climática.

Depois de um longo período que posso descrever como dias de tormenta, onde eu achava que meu barco iria virar e eu iria afundar, consegui segurar a barra e ficar de pé, viva. Agora estou num período muito mais tranquilo e equilibrado, me sinto mais centrada, menos obsessiva, menos deprimida.

E pensei nessa analogia, porque tive a sensação hoje de que entrei, de repente, numa tempestade terrível. Acho que não percebi as ondas aumentando lentamente, nem os ventos ficando mais fortes, mas hoje tá sendo um dia bem difícil. Principalmente porque veio um kraken e tentou seriamente destruir o barco.

E o lance todo é aprender a controlar e proteger esse barco, porque sei que sou capaz e que uma hora isso vai passar. Mas é difícil não pensar que, na verdade esse é o meu estado real e o outro é o passageiro. Que o kraken não vai destruir todos os planos e sonhos. Nessas horas dá vontade de sair correndo e se encolher naquele cantinho seguro. Todo mundo tem um. E aí me vem todas aquelas perguntas de auto crítica, porque se eu estava bem antes, como é que eu estou nesse estado agora? Onde foi que eu vacilei? Não seria melhor eu desistir de vez? Às vezes essa pergunta vem com tanta força que dói fisicamente.

Mais uma vez eu tenho que me forçar a colocar o barco no prumo e segurar a barra e acreditar que isso vai passar, que vou conseguir ficar naquele estado bom que consegui chegar nas últimas semanas. E ninguém faz ideia dos meus limites, das minhas fronteiras, na realidade. Esse é um barco pilotado apenas por mim.

Sobre ter T.O.C.

I don’t care if it hurts. I wanna have control.por You don‘t need to quit life to be dead

Antes eu não tinha consciência do quanto o meu Transtorno Obsessivo Compulsivo me afetava até começar meu tratamento psiquiátrico e começar a fazer psicanálise. Hoje em dia consigo ver que quando perdi meus 20kg em 2012 não foi porque estava obstinada, mas porque estava completamente obsessiva. Revejo meu comportamento alimentar e de exercícios físicos de janeiro de 2012 e final de 2014 e fico horrorizada em como ninguém viu que aquilo não era saudável mesmo não sendo um distúrbio alimentar padrão. Bem, na verdade algumas pessoas me questionaram, sim, se aquela loucura toda era saudável, mas elas jamais viram como TOC, simplesmente porque cada vez mais eu percebo que as pessoas não sabem muito bem o que é exatamente ter TOC.

O TOC é pintado como apenas querer organizar e padronizar objetos de maneira perfeita e no seu devido lugar ou em determinada posição. Antes de mais nada devo ressaltar que o transtorno é compulsivo, é fora do nosso controle, é mais forte que a gente. Quando se entra numa crise às vezes é impossível de sair. Hoje só consigo controlar, e pouco diga-se de passagem, porque estou bem medicada e porque estou fazendo análise. E mesmo assim é muito difícil, é exaustivo. A obsessão é a busca do perfeccionismo e do controle em tudo e não apenas em objetos. Quero que meu corpo, meus relacionamentos, meu trabalho, os meus estudos, minha mente, que tudo seja perfeito e esteja sob meu controle. Nisso fico me colocando em limites mentais e físicos e estou sempre me frustrando e buscando novos limites cada vez maiores. É uma bola de neve se não tratar.

Muitas vezes as pessoas acabam externalizando o transtorno é aí que aparecem aqueles comportamentos que já vimos em filmes como apagar as luzes ou lavar as mãos determinados números de vezes.

O.C.D. feels like… por Gemma Correll

Darei exemplos para vocês de alguns comportamentos que tive no período de 2012 a 2014:

  • Eu cortei os carboidratos e açúcares. Ah, lembrando que fiz tudo isso da minha cabeça, sem nutricionista. Bem errado mesmo. Só permitia um carboidrato por refeição. E pão. Nunca consegui cortar o pão. Mas tudo bem. No jantar era salada de folhas, tomates, legumes leves e feijão liberado ou soja. Aí, como eu era compulsiva, não vamos esquecer desse detalhe, tinha que comer mais, né? Eu fazia um snack saudável. Preparava a minha ~SAGRADA PIPOCA LIGHT~. Eu fazia com uma colher de sopa de margarina light(não tava nem aí se era saudável, o que importava eram as calorias) e com um pouco de água na panela. Usava o medidor de meia xícara de chá de milho e sabia que aquela porção teriam exatas 120 calorias. Eu tinha que comer isso TODOS OS DIAS. Isso mesmo. TODOS OS DIAS. Só me sentia satisfeita(quando me sentia satisfeita) se eu comesse a sagrada pipoca light. Eu sofria se fosse viajar e dormir em outro lugar porque não teria como comê-la. Sofria verdadeiramente. Isso por 2 fucking anos.
  • Teve a fase do mingau de aveia. Passei 4 meses jantando um mingau de aveia que era feito de aveia e leite de soja ou leite  desnatado. Mais uma vez, TODOS OS DIAS. E não enjoava.
  • Comecei a beber no mínimo 3 litros de água por dia. Passava o dia inteiro com uma garrafa na mão e caso ficasse sem a garrafa eu ficava intratável. Eu realmente fazia uma novela. Beber bastante água é saudável, a questão é que eu não sabia lidar com a ausência da garrafa.
  • Quando ia na academia eu ficava, no mínimo, 40 minutos em cada aparelho de ergometria. E eu fazia todos. Depois estipulei que o ideal era sempre no minimo 1 hora. Até que decidi comprar uma esteira. Quando comprei a esteira às vezes eu ficava até 2 horas correndo. Isso porque nos dois primeiros meses de dieta fui todos os dias na academia exceto domingos.
  • Quando saia pra algum evento social eu evitava ao máximo comer, porque acreditava que um diazinho iria colocar todo meu esforço por água abaixo. Sofria demais com qualquer pedaço de comida que ingeria fora da minha rotina, mesmo que fosse algo leve. E se fosse inevitável, tipo um jantar com meu pai, escolhia a coisa mais sem graça do cardápio. Acredito que posso contar nos dedos as vezes que comi macarrão nesse período.
  • Tudo tinha que ser light e sem gordura. E pior, eu carregava as pessoas à minha volta junto nessas obsessões. Pressionei meu ex-marido, na época casado comigo, a se alimentar melhor e a fazer exercícios também, quando viajei pra NY com a minha irmã fiz ela comer saladas o tempo inteiro.
  • Todas as calorias eram controladas e compensadas. Eu tinha que ter o controle do meu corpo, do que eu comia. Parei de usar escadas rolantes e elevadores e só usava as escadas comuns, assim queimava mais calorias. Todos os dias eu subia e descia as escadas da estação do metrô para ir e voltar do trabalho. As pessoas que trabalhavam comigo riam de mim.
  • Me sentia tremendamente culpada caso não fizesse os exercícios físicos. Eu só poderia sair com meus amigos ou só poderia relaxar nos dias de folgas se fizesse um pouco do que tinha proposto para gastar calorias. Do contrário, era como se eu estivesse fazendo algo muito errado e tudo seria em vão. Como se eu fosse dormir e no dia seguinte estaria com todos os meus quilos que tinha perdido de volta.

story of my life por Otariano

É claro que desenvolvi um distúrbio alimentar. Nunca cheguei a ficar sem comer de fato, mas tiveram momentos que preferi ficar sem comer a colocar em risco a dieta. E eu achava tudo muito normal e que as pessoas tinham que entender que essa era a minha escolha. Lembro-me que às vezes eu discutia com meu ex-marido ou com a minha mãe ou com a minha irmã sobre meu comportamento e chegava a tremer enquanto discutia de que não ia abrir mão da minha dieta. Só que eu já estava magra. Perdi 14 quilos só no primeiro mês. Perdi mais 5 no segundo. Tive que trocar meu armário inteiro, porque mais nenhuma roupa me servia.

Hoje a minha relação com meu corpo e com a comida é muito mais saudável. Com 1 ano de análise consigo aceitar meu corpo e consigo aceitar que comida é alimento e também ter prazer em comê-la em determinados momentos. Acima de tudo, consigo me sentir saciada, coisa que antes eu não conseguia.

Porém vejo que meu TOC usava essa válvula de escape. Agora reconheço outros comportamentos obsessivos. Fico neurótica com comentários não respondidos no Facebook, com o meu cabelo que não está na cor exata que eu gostaria e até mesmo com meus gatos, porque cismo de que não estou cuidando direito deles. Eu poderia falar uma infinidade de outros comportamentos obsessivos que eu tenho, mas acho que já consegui passar a mensagem que eu queria. E podem parecer pensamentos simples, mas eu fico obcecada com esses pensamentos, eu fico sofrendo com essas coisas, eu não paro de sofrer e crio cenários na minha cabeça e as vezes confundo com o que é realidade. É muito angustiante exatamente por ser compulsivo.

Depois da última avaliação com a psiquiatra e com a nova dosagem de medicamentos, eu tenho conseguido reconhecer mais as obsessões. Isso não significa que eu consiga sair delas todas as vezes, entretanto considero um grande avanço já reconhecê-las, pois assim eu já falo delas na análise.

O que eu quero dizer com esse texto é que ter TOC é muito diferente do que geralmente é pensado. É muito cansativo, angustiante e solitário, porque é viver num mundo de paranóias e aflições.

 

A necessidade de estar fazendo alguma coisa

Reading is Dreaming with Your Eyes Open por Henn Kim

Eu não faço ideia se esse texto vai ficar bom, porque estou passando por um bloqueio brutal. Não estou conseguindo me concentrar direito em nada e isso tem me angustiado de maneira excruciante. Não consigo fazer as coisas com a facilidade e a qualidade habitual, como escrever, ler, fazer sudoku, palavra cruzada ou até mesmo ver televisão. Nada prende a minha atenção. Qualquer entretenimento ou atividade rotineira que exija concentração intelectual mínima está sendo um martírio e estou sofrendo de verdade com isso. Estou me sentindo amputada, desamparada.

E agora você deve estar indagando do que eu estou falando, porque eu estou escrevendo neste exato momento, o que é bem contraditório. E é, totalmente. Concordo com você. Mas acho que eu já deixei bem claro que a minha mente não faz o menor sentido.

Mais uma vez eu lembrei que criei esse espaço exatamente com o intuito de despejar em palavras, sensações e ideias, algumas vezes claras, outras vezes confusas, porém sempre com o intuito de me fazer bem e eu estou, agora mesmo, me sentindo muito melhor por estar digitando essas linhas.

Afim de sanar minha tormenta causada pela falta de concentração, há uns 3 dias, procurei minha psiquiatra e quis saber se esse meu estado mental seria algum efeito colateral dos medicamentos. E ela me disse o que no fundo eu já sabia, que eu tenho que ter paciência e dar tempo ao tempo. E aí eu me deparei com o meu pior pesadelo: o que fazer comigo mesma quando eu não consigo me concentrar em uma outra coisa. Enquanto procurava algo que segurasse a minha atenção, tropecei num texto que dizia que atualmente uma pessoa é vista como bem sucedida quando está sem tempo, porque quem tem tempo não é levada a sério.


The strongest hearts have the most scars por Henn Kim

Foi quando eu percebi mais uma doença da sociedade atual que me acomete e consome minha saúde mental e me questionei: por que eu preciso estar ocupada com alguma coisa o tempo todo? Por que eu simplesmente não posso ou consigo, por exemplo, ficar vendo o meu gato se lamber ou vendo as nuvens passando no céu? Por que as pessoas sempre precisam saber qual é a boa de hoje pra se divertir, não podem simplesmente não fazer nada sozinhas em casa? Quando foi que 24 horas se tornaram insuficientes para as pessoas terminarem seus afazeres?

Em vez de continuar me frustrando, eu desisti de forçar a minha leitura e a minha concentração. Específico a leitura, porque ler é o hábito que eu mais prezo nesta vida e me encontrar empacada nele me deixa exasperada. Eu preciso ocupar meu tempo livre com liberdade e não com ocupações e funções. Foi imposto de que é preciso ser produtivo o tempo inteiro, do contrário você é vagabundo ou irresponsável. Tenho procurado atividades que me relaxem e que preencham meu cérebro com grandes nadas. (Notem que eu continuo tentando ~ocupar~ meu tempo fazendo nada. Sem falar que foi uma coisa que não percebi sozinha.)

Acho que consegui escrever isso aqui exatamente porque estou conseguindo relaxar. Ainda não sei exatamente como isso funciona, porque acho que se eu soubesse eu não iria precisar me reabilitar sobre esse hábito. É tanta cobrança, por parte minha e da sociedade, pra ter o corpo ideal, ser multifunção, inteligente e dona de casa impecável, que terminei a semana passada chorando acreditando verdadeiramente estar ficando senil porque não consegui ler uma página inteira de um livro best-seller infanto juvenil, não tive concentração pra ver um episódio de Unbreakable Kimmy Schmidt e me vi repetindo frases em mensagens de texto ou até mesmo palavras em conversas faladas.

Cada vez mais me vem a sensação de que se eu fosse uma máquina eu estaria terminalmente quebrada e vejo a minha sorte por ser composta de neurônios e não de placas e peças, porque provavelmente eu teria queimado várias. E o mais curioso ao fazer essa comparação é porque tenho sentido mais necessidade de me conectar com a natureza, tanto o meio ambiente quanto a humana, para encontrar o que é necessário para minha mente estar saudável e em paz.


Beautiful Emptines por Henn Kim

Modus Operandi


L’hynose, les echos week-end por Marion Fayolle

Um dos maiores desafios que eu enfrento é tentar explicar pras pessoas que convivem comigo de que algumas coisas tão simples, como sair de casa para ir ao mercado ou até mesmo escolher a roupa que vou vestir, regularmente se tornam tarefas tão cansativas quanto correr ou levantar peso, porque sofrer de transtorno obsessivo compulsivo e ansiedade social faz com que uma decisão simples e rotineira se transforme em um suplício.

Darei um resumo do processo diário que é sair de casa até chegar no trabalho:

Depois de escovar os dentes e calçar os sapatos, arrumo a minha mochila e vou fazer xixi. Eu preciso sair imediatamente de casa, caso contrário terei que fazer xixi de novo, porque já vai ter dado tempo de ter xixi na bexiga e irei fazer xixi na calça quando estiver na rua já que eu não fiz xixi precisamente antes de sair de casa. Uma vez que passo pela porta, verifico pelo menos 2 vezes se realmente a tranquei e umas 3 vezes se não deixei a chave da galeria de arte onde eu trabalho cair quando guardei as de casa. Hoje em dia já não abro a bolsa toda hora, porque tenho medo de que as coisas caiam ou que alguém pegue algo, mas fico tateando por fora pra sentir os objetos no lugar. Entro no elevador e verifico se guardei o celular dentro da mochila, sendo que eu acabei de verificar junto com as chaves. Desço as escadas do metrô e entro sempre pela mesma catraca da estação. Não gosto de usar outra catraca. Quando uso outra catraca, porque aquela está desligada ou tem muita gente, me sinto na obrigação de mudar também a escada pela qual vou descer. Normalmente uso as escadas comuns, afinal assim já queimo calorias, porque estou gorda, mas caso eu desça pela escada rolante porque entrei pela catraca errada, me sentirei culpada por desperdiçar um tempo que eu poderia estar queimando calorias. Entro no vagão das mulheres(sempre) e só me sinto confortável se vou na ponta do vagão. Me sinto exposta e vulnerável no meio do vagão. Durante todo o trajeto eu verifico inúmeras vezes se meu celular está na mochila. Eu não consigo nem calcular quantas vezes isso acontece. Saio do trem e verifico se meu celular caiu da minha bolsa no vão entre trem e plataforma e sigo para a escada comum, pelo mesmo motivo de querer queimar calorias já que estou gorda e eu não quero que as outras pessoas achem que estou gorda porque prefiro usar escadas rolantes. Eu não uso a mesma saída do metrô em dias consecutivos. Tenho medo de ser perseguida ou de alguém perceber que saio sempre no mesmo horário pela mesma saída do metrô. Por isso, alterno as saídas. Enquanto eu ando na estação, verifico mais algumas vezes se meu celular está no mochila e coloco a chave da galeria no bolso da calça. Até chegar na porta da galeria, além de verificar se o celular está na bolsa junto com as chaves de casa, também vejo se a chave da galeria caiu do meu bolso. Enfim, chego no trabalho.


Diagnostiquer les troubles mentaux por Marion Fayolle

Esse só é um exemplo do que acontece na minha cabeça quando só estou andando ou estou com cara de paisagem no transporte público ou até mesmo tendo uma agradável conversa com alguém. Eu tenho pensamentos obsessivos e ansiosos o tempo inteiro. São raros os momentos do meu dia em que consigo focar em uma coisa e não deixar qualquer outro pensamento afetar aquilo.

O que eu descrevi acima é meu estado normal, meu estado controlado de raciocínio, porque quando estou em pico de ansiedade as vezes as situações prováveis na minha cabeça envolvem colisões de trens, ataques terroristas, pessoas me batendo e outras coisas bem surreais de acontecer e como resposta meu corpo responde com coceiras, estalar dedos e puxar cabelo da nuca.

Me requer um esforço monumental não deixar esses pensamentos correrem solto e colocar em foco o que eu preciso resolver no momento. É como organizar um cômodo entulhado com uns furões correndo loucamente entre as coisas e derrubando tudo no chão e você tentando colocar tudo no lugar enquanto eles derrubam tudo de novo. Usando essa analogia, eu sei que preciso em algum momento não me importar mais quando uma coisa ou outra cair por causa dos furões. Acidentes acontecem. Não posso controlar tudo. Mas é aí que entra a compulsão do transtorno: eu simplesmente não consigo parar de fazer isso.

E é por isso que eu tenho tanta dificuldade em determinadas situações sociais pra me sentir à vontade e, como é uma coisa que ninguém vê, é complicado entender que me sinto como se estivesse fisicamente inapta a me mexer, a andar, a respirar no meio das pessoas. Eu acredito que se todos lembrarem que as outras pessoas podem estar vivendo uma batalha épica para simplesmente entrar numa estação de metrô, com certeza seríamos seres humanos mais saudáveis.